A Alegria de aprender norteia política educacional modelo de pequeno país da Europa

Na Finlândia, cujo sistema escolar está no topo do ranking da Europa nos últimos 16 anos, se argumenta que a base para um bom desempenho escolar começa muito antes das crianças entrarem na escola formal, isto é, enquanto os seus futuros alunos ainda estão nas fraldas. Um dos objetivos da educação finlandesa é garantir que as crianças estejam felizes e sejam responsáveis.

A ideia central da educação na Finlândia é a alfabetização tardia. Nas creches finlandesas, a ênfase não está na matemática, leitura ou escrita (as crianças não recebem nenhuma instrução formal até os sete, quando vão para a escola primária), mas nas brincadeiras criativas. Isso pode surpreender os pais que vêem a educação como uma corrida competitiva. Na Finlândia os pais são mais relaxados: Segundo Tina Marjoniemi, diretora de uma creche finlandesa, eles acreditam que as crianças menores de sete anos não estão prontas para começar a escola, elas precisam de tempo para brincar e ser fisicamente ativas. É uma fase para a criatividade.

O principal objetivo da educação pré-escolar não é explicitamente “educação” no sentido formal, mas a promoção da saúde e bem-estar de cada criança. A creche deve ajudá-las a desenvolver bons hábitos sociais: aprender a fazer amigos, respeitar os outros e vestir-se sozinho por exemplo. Orientações oficiais também enfatizam a importância na pré-escola da “alegria de aprender” e enriquecimento da comunicação e linguagem.

Há ênfase na atividade física (pelo menos 90 minutos de jogo ao ar livre por dia). “O Jardim de infância na Finlândia não se concentra em preparar as crianças para a escola academicamente”, diz o especialista educativo finlandês Pasi Sahlberg. “Ao contrário, o objetivo principal é certificar-se de que as crianças são indivíduos felizes e responsáveis.”

Brincar é essencial no aprendizado infantil, as crianças aprendem brincando, mas o brincar não é livre e sim direcionado e com objetivo. A brincadeira  é um negócio sério, pelo menos para os professores, porque dá às crianças habilidades vitais para aprender. A exemplo disso uma creche em Franzenia tem 44 funcionários que trabalham com crianças, das quais 16 são professores de jardim de infância (cada um com graduação de três anos), e 28 enfermeiros de viveiro (com qualificação profissional de dois anos). A relação é de 1 para cada  4 crianças (para menores de três anos) e 1 para 7 (para as crianças mais velhas). Grande cuidado é tomado para planejar não apenas os tipos de brincadeira – É  uma mistura de “brincadeira livre” e brincadeira dirigida pelo professor, mas também para avaliar como as crianças brincam. O desenvolvimento das crianças é constantemente avaliado. “Não é apenas brincar livremente, mas aprender através da brincadeira”, diz Marjoniemi.

Brincar nesta fase do desenvolvimento da criança pode iniciá-la no processo de aprendizagem, diz David Whitebread, diretor do Centro de Pesquisa sobre Brincadeira na Educação, Desenvolvimento e Aprendizagem na Universidade de Cambridge. Uma vez envolvido em uma tarefa que eles gostam, seja dramatizando uma história ou na construção de um prédio de legos, as crianças são motivadas a aperfeiçoar e melhorar constantemente sua atividade, crescendo com o desafio. “Do ponto de vista psicológico, a brincadeira pode ajudar as crianças a se tornarem aprendizes poderosos”, diz ele.

A brincadeira cuidadosamente planejada ajuda a desenvolver habilidade como a capacidade de atenção, perseverança, concentração e resolução de problemas, que aos quatro anos são valorosos pressupostos de sucesso acadêmico mais importantes do que a idade na qual uma criança aprende a ler, diz Whitebread. Há evidências de que a aprendizagem baseada em brincadeiras qualitativas nos primeiros anos não só enriquece o desenvolvimento educacional, mas aumenta o sucesso de crianças menos favorecidas que não possuem o capital cultural daquelas de famílias ricas. Segundo Whitebread: “Quanto melhor a qualidade da pré-escola, melhores serão os resultados, emocionalmente, socialmente e em termos de desempenho acadêmico.”

Fundamentalmente os cuidados nos primeiros anos na Finlândia são desenvolvidos e custeados para garantir alta qualidade: toda criança tem o direito legal de pre-escola de alta qualidade. Em Franzenia, como em todas as creches, há crianças de diferentes origens. As mensalidades, subsidiados pelo Estado, são limitadas a um máximo de € 290 (£ 250) por mês (gratuito para pessoas com baixos rendimentos) por cinco dias, 40 horas de cuidados por semana. Cerca de 40% das crianças de 1-3 anos estão em creches e 75% das crianças de 3-5 anos. A pré-escola opcional aos seis anos de idade tem um índice de  98% de acolhimento. Inicialmente prevista na década de 70 como uma forma de trazer as mães de volta para o trabalho, segundo  Marjoniemi a creche também se tornou um aprendizado vitalício em como preparar crianças pequenas.

O tempo gasto na pré-escola, com ênfase na brincadeira e socialização, são os anos mais importantes, diz Jaakko Salo, assessor especial do OAJ, o sindicato dos professores finlandeses. A educação finlandesa sofre os maiores cortes financeiros na sua história, com a perda de € 2 bilhões, ou 8%, do seu orçamento, mas primeiros anos e as escolas primárias – o alicerce do sistema e o ponto onde as habilidades de aprendizagem podem ser mais incorporadas com sucesso – foram relativamente protegidas, de acordo com o OAJ.

A Creche não é o único fator que sustenta o sucesso acadêmico. Conectada com a missão educativa da Finlândia  está a ideia de que a igualdade é vital para o sucesso econômico e bem-estar social, bem como a crença de que uma nação pequena,  dependente da criatividade, ingenuidade e solidariedade para competir na economia global, não pode arcar com a desigualdade ou segregação na educação ou saúde. Por detrás da sua classificação educacional estrelar está um sistema de segurança social e de saúde pública abrangente que garante uma das mais baixas taxas de pobreza infantil na Europa, e alguns dos mais altos níveis de bem-estar. Gunilla Holm, professor de educação na Universidade de Helsinki, diz: “O objetivo é que todos nós devemos progredir juntos.”

Como funciona
O sucesso do sistema escolar global da Finlândia é uma história bem propagada. Na virada do século, para surpresa dos finlandeses e do resto do mundo, ela emergiu como líder global em educação. Testes Pisa (Programa Internacional de avaliação de alunos) revelaram que os alunos finlandeses produziram alguns das maiores pontuações do mundo em matemática, ciências e leitura. Nos três relatórios subsequentes, o último em 2012, o desempenho do país caiu um pouco, mas continua a ser o mais bem classificado na Europa.

Seu sucesso veio sob um sistema construído que vai contra as tendências de ensino adotadas nos anos 1980 e 90 por países desenvolvidos. Na Finlândia, as crianças não iniciam o aprendizado acadêmico até que tenham sete anos. Impulsionado por um compromisso com a igualdade (tanto moral como no plano económico), que proíbe a seleção escolar, exames formais (até a idade de 18) e distribuição pela capacidade. Competição, escolha, privatização e tabelas classificativas não existem. “Ensinar para o teste” é um conceito estranho. Escolas de gramática, atual obsessão do governo do Reino Unido, foram abolidas décadas atrás. Refeições escolares gratuitas, provisoriamente aprovados para os alunos mais jovens só no Reino Unido, são amplamente fornecidas.

Elementos de escolaridade que causam mais ansiedade nos pais : o meu filho vai entrar em uma “boa escola”, entrar num selecionado grupo no topo escolar ou se vão conseguir uma boa pontuação SATs ( exame semelhante ao Exame Nacional do Ensino Médio brasileiro)  estão ausentes na Finlândia. As diferenças nos resultados educacionais entre as escolas na maioria das áreas são relativamente triviais, ou seja, os pais raramente enviam seus filhos mais longe do que a escola local. Os alunos geralmente são mais felizes também: uma abordagem de qualidade e  não  quantidade significa que os horários escolares são mais curtos e deveres de casa são leves. Tutoria depois da escola é raro. crianças finlandesas são mais felizes e menos estressadas do que seus contemporâneos britânicos.

A medida que a política educacional do Reino Unido se torna mais estreita e centralizada, na Finlândia dá-se mais poder a professores e alunos para desenvolver um aprendizado direto. Os professores são bem pagos e bem treinados ( devem completar graduação de cinco anos), respeitados pelos pais e valorizados por políticos. Não há nenhuma inspeção externa de escolas e professores, mas um sistema de auto-avaliação, sua política educacional é fortemente baseada na pesquisa.

Devido as últimas pontuações nos testes Pisa, mudanças curriculares nacionais foram introduzidas este ano: mais tempo dedicados à arte e artesanato. A criatividade é a palavra de ordem,  competências essenciais incluem “aprender a aprender”, multiliteracidade, competências digitais e empreendedorismo. No coração do novo currículo, o Conselho Nacional de Educação diz descaradamente, é a “alegria de aprender.”

 

Fonte em inglês:https://www.theguardian.com/education/2016/sep/20/grammar-schools-play-europe-top-education-system-finland-daycare